segunda-feira, 9 de junho de 2014

A dama da boate




Muitas meninas em Manaus vivem de prostituição. Uma das mazelas que vieram com o inchaço da cidade, pós Zona Franca. A miséria, a fome, empurram as garotas para a vida fácil. As autoridades sabem. As secretarias de assistência social também. Mas não há muito o que fazer. Em qualquer esquina da cidade lá estão elas, esperando o primeiro homem disposto a pagar por um programa.

Numa tarde em que rodava com o meu táxi pelas ruas da cidade, uma garota fez sinal na Avenida Santos Dumont. Uma moça loira, de beleza exuberante. Aparentava ter uns 19 anos. Lembro-me do vestido curto e decotado e dos trejeitos sensuais.  As mulheres sempre gostam de andar no banco traseiro do carro, mas essa sentou no banco da frente.  Com nariz empinado, demonstrava ousadia e coragem. Mandou que eu seguisse em frente e parasse no primeiro comércio que encontrasse. Ela desceu e pediu  que eu esperasse. Voltou logo em seguida trazendo uma carteira de cigarro e uma lata de refrigerante.  A impressão que eu senti é que ela gostava de impressionar. Sabia que era bonita e não fazia questão de esconder.

Estou no ramo de táxi há mais de 30 anos. O sexo sempre está presente nesse mundo.  O mundo da noite é pernicioso e convidativo. Os passageiros que buscam o prazer rápido estão sempre presentes. São turistas, passageiros em busca de programa e mulheres se oferecendo na  vida fácil. Apesar do tempo em que convivo nesse ambiente, nunca me acostumei ao ver  moças jovens, com toda vida pela frente, nesse mundo de perdição.

Ao voltar para o táxi, ela sentou do meu lado, suspirou. Senti o cheiro do perfume barato. Pediu que eu a levasse para a boate Rêmulo´s, um inferninho que existe no centro de Manaus. No local, as mulheres fazem strip-tease e depois saem para programas com clientes da casa.

Ela percebeu meu ar meio assustado. Começou a falar da vida dela sem que eu perguntasse.
- Você deve estar achando estranho eu pedir para ir para o Rêmulo´s. Mas é isso mesmo. E não se preocupe. Eu sou maior de idade. Trabalho lá porque estudei pouco. Meu pai abandonou a minha mãe, assim como o meu namorado me abandonou quando engravidei, então não tenho muita opção. Sustento minha mãe e minha filha com esse dinheiro.

Perguntei a ela se a família sabia o que ela fazia e ela respondeu que a mãe pensava que ela trabalhasse em um hotel. Nessa hora ela abriu a janela do carro e olhou para longe. Suspirou. Parecia cansada. Foi então que demonstrou um quase arrependimento.

- Eu tenho sonhos. Um dia saio dessa vida. Arrumo um marido e vou ter uma família digna. Por enquanto é isso que dá para eu fazer.

Parei na porta da boate. Ela pagou a corrida e saiu rápido como se alguém já a esperasse. Fiquei olhando ela sumir pelo corredor. Na porta, dezenas de homens já se aglomeravam para entrar pela boate. Lá dentro, aquela quase menina, que perdera a inocência tão cedo certamente já aguardava o primeiro cliente. Momentos de prazer fugaz para um homem qualquer. Para ela, apenas um cliente que lhe daria alguns trocados. Todos os dias a mesma vida bandida e sem esperança. Segui com o meu táxi pela rua pensando na vida, na sorte, nas opções que as pessoas fazem na busca pela sobrevivência. Tomara que um dia ela realize os sonhos. Tomara que um dia ela saia da boate. Um passageiro faz sinal para o meu táxi. Ainda absorto em pensamentos pela moça de cabelos loiros, paro o carro. Que sonhos agora irei transportar?