segunda-feira, 5 de maio de 2014

Uma noite de sorte



Eu rodava no meu taxi, numa noite de domingo, no centro de Manaus.  Era uma noite escura, no mês de maio, dia do aniversário de minha mãe. Ao chegar a Rua Ramos Ferreira, esquina com Getulio Vargas, dois rapazes fizeram sinal de parada para o carro. Lembro-me deles pelo perfil de garotões. Calçavam tênis, camisa colorida com muitos desenhos e usavam boné. Entraram no carro e mandaram eu seguir em frente.

Um deles sugeriu que seguíssemos para Bola da Suframa. O outro não aceitou. Disse que um tal "José" poderia não estar lá.

A luz vermelha acendeu na minha cabeça de taxista calejado, após muitos anos de convívio diário com passageiros que entram e descem do meu carro. Eu fiquei desconfiado. A dupla mandou que eu descesse  a Luiz Antony, entrei na rua 10 de Julho, ao lado do Teatro Amazonas. Ali mandaram que eu parasse. O local estava deserto, não havia movimentação nas proximidades. Quando parei o carro, pensei que fossem pagar a corrida, mas fui tomado por um susto. Senti a gola da camisa repuxar e o metal frio de um revólver se encostar no meu ouvido.

Tive a certeza do assalto. O homem que viajava no banco traseiro mandou que eu colocasse a mão no volante.

- Não desliga o carro. Se fizer um movimento em falso eu te queimo aqui mesmo.

Enquanto isso, o homem da frente já revirava o porta-luvas atrás do dinheiro. Os olhos agitados tinham pressa.

- Cadê a grana?? Diz logo, onde está o dinheiro?

- Está aí na carteira. Pode levar tudo, mas me deixa aqui que eu tenho filho para criar.

O homem atrás retrucou para que eu calasse a boca.

-  Cala a boca, senão vou te matar aqui mesmo. É bom que que tu morre e deixa um monte de filho por aí. E agora é o seguinte, motora.Tu vai pro banco de traz. Eu vou pegar o volante e nós vamos dar uma volta! Eu vou te mostrar que não estou de brincadeira!

Tirou o revólver do meu ouvido e me mostrou. Era um três oitão, cano longo, prateado. Abriu o tambor. A arma estava "até o tucupi" de bala.

Naquele momento, me lembrei de meus colegas mortos em assaltos, parceiros que foram encontrados em varadouros da morte. Manaus sempre teve muitos assaltos a taxistas. Alguns casos são lembrados até hoje. Colegas que saíram para trabalhar e nunca mais voltaram para casa. Pensei que naquele domingo havia chegado a minha hora.


Num relance de coragem, depois de pedir ajuda a Deus, resolvi que teria que escapar. Pensei comigo: "Se me levarem daqui, vão me matar".

Os palavrões se repetiam. O homem no banco traseiro passou o revólver para o rapaz da frente e mandou que eu passasse para trás. Ele saiu do carro, deu a volta pela frente para pegar o volante. O outro continuava a apontar o revólver para mim.

Por puro instinto de sobrevivência, tomei a decisão de escapar ali mesmo. Não seria levado para um bairro distante para morrer e ser abandonado em um matagal. Ali no centro eu teria mais chance de ser socorrido. Abri a porta do carro e tentei correr. Esperei o tiro pelas costas, mas o assaltante que já estava próximo a mim, tentou me empurrar de volta para o carro. Eu me transformei num sabonete molhado. Corri na escuridão e gritei por socorro.

Os homens arrancaram com o meu carro. Saíram cantando pneu, em alta velocidade. Sumiram com o meu ganha pão.

Depois de muito correr, apareceram várias pessoas. Pedi carona a um motorista que passava pela rua. Ele me levou até o ponto de taxi, onde estavam meus colegas. Fui socorrido por eles. Ofereceram-me água, mas de tão nervoso, nem conseguia tomar o líquido, que descia queimando pela minha garganta.

Fui até a Delegacia. Registrei a ocorrência e voltei ao ponto. Taxistas solidários quiseram ir atrás dos bandidos e, para minha surpresa, meus colegas já haviam encontrado o meu carro intacto, com todos os documentos dentro. Só levaram o dinheiro e o toca CD.

Por que os bandidos abandonaram o meu carro? Porque bandido sabe da fama de taxista. Não existe classe mais unida. Quando há um assalto e o motorista escapa, todos os outros se juntam para procurar os assaltantes. Quando conseguem pegar os bandidos, dão um corretivo, e entregam para a Polícia.

Hoje estou vivo por milagre! Ainda bem! Vivo para continuar escrevendo as crônicas de um taxista pelas ruas de Manaus.